São tempos difíceis para os escrivinhadores

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Outro dia estava ouvindo outra redatora falar de como a Língua Portuguesa estava se tornando um assunto polêmico. Que antes a gente aprendia as regras e se soubesse usar bem, estava tudo certo, mas que hoje as pessoas querem mudar as regras o tempo todo.

Em um primeiro momento pensei, como você também deve estar pensando, que se tratava de uma reclamação sobre as Novas Regras Ortográficas. Já nem são tão novas, não facilitaram nada e no final das contas as pessoas escrevem tão errado quanto sempre escreveram. Deve ter servido pra salvar alguma editora da falência, fazer algum Acadêmico rico ficar mais rico ou coisa do tipo. Confiram nos anais do inferno, onde guardam as tais boas intenções.

Outras mudanças ortográficas

Mas a verdade é que ela tava falando das flexões de gênero. Tipo menino e menina, e um movimento que não quer discriminar, adotando um gênero neutro, que ficaria meninxs. É um movimento social e se você está fora do contexto fica difícil achar que isso merece alguma atenção.

– Assumo, tenho preguiça de pensar na mudança da conjugação e tudo mais pra escrever assim.

Mas eu to num quadradinho razoavelmente fácil de mulher caucasiana, classe-média, hétero, que mora em um centro urbano e tem acesso a luz elétrica, internet e água encanada. Então a discussão não é exatamente uma realidade minha no momento.

Só que eu vivo de escrever e se eu quero escrever com propriedade, preciso por a cabeça para pensar e passar da fase da preguiça. O movimento existe e tem um porquê. Procure saber.

Presidente e presidenta

Esses dias elegeram uma mulher para o supremo. No caos político que o país se encontra, no afã das ironias e trocas de farpas, um colega perguntou se ela queria ser chamada de presidente ou presidenta.

– Fui estudante, portanto sou presidente.

Então. Na minha visão de quem sempre achou essa parte do estudo bem chatinha, palavras como presidente, estudante, amante, ajudante são neutras. Não flexionam gênero. Não são nem masculinas, nem femininas.

Quando aconteceu, achei a história de presidenta um tanto descabida, e apesar de achar o mundo terrivelmente cruel com as mulheres, presidenta ainda parece demais pra mim.

O Português é um idioma machista? Sim. Mas para mim a exigência da Dilma foi infeliz. Tanto machismo operante no planalto, tanta coisa para lutar, e ela resolver flexionar uma palavra que, no meu ponto de vista não acadêmico, nem ia precisar.

Mudanças sempre virão

Com revoluções sociais ou não, com internet ou bordões políticos, os idiomas mudam. Ou morrem.

Eu imagino que os mais puristas, aqueles que se apegam às regras antigas, podem estar pensando em seus próprios argumentos sobre manter as coisas como estavam e vão achar alguma coisa convincente. Enfim, eu não trabalho com teorias, só especulo de vez em quando.

Em vez de achar terrível e nebuloso, ficar com preguiça e medo do que virá, penso que um mundo de possibilidades pode surgir. Uma nova forma de pensar, de escrever e de contar histórias.

Talvez sim, talvez não. Mas se eu me negar a saber do que estão falando, nunca vou saber. E pior que isso, vou ser engolida e ignorada pelas mudanças.

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Formatura

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Outro dia eu estava estudando para o vestibular. Eu queria ser cientista, astronauta, ser genial. Fui bem na prova. Nas provas. Pude escolher. E aí a coisa desandou, a faculdade não foi bem o que eu esperava. Um longo tempo se passou até que eu tive coragem de largar tudo e estudar para outro vestibular.

Vestibular. Fui bem na prova. Nas provas. Pude escolher de novo. Rio de Janeiro. Comunicação, publicidade. Direção de arte. Certeza. Demorei pra conseguir um estágio, o primeiro foi de telemarketing. Trevas. No segundo, redação. Mas tive que aceitar, faltava pouco pra me formar, e no final das contas, eu até gostava de escrever. Muito.

Um mês depois de ter começado o estágio, a Redatora que me contratou pediu as contas. Fiquei sozinha na agência, assumi o posto. Virei eu a Redatora da agência. Já me formei como Redatora. A história de ser Diretora de Arte acabou e eu nem sofri.

E agora, vejam só, meus amigos avisam que no final do ano vamos comemorar 10 anos de formatura. 10 anos. Já? Tudo isso? Mudei de faculdade, de especialização, de cidade algumas vezes, fiz pós até.

E foi apenas outro dia.

Fim do velho mundo novo

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Outro dia eu tinha oito anos e acreditava em um mundo novo pois o muro de Berlin estava sendo derrubado. Os anos foram passando e eu fui estudando que a Europa caminhava para a superação daquela etapa cruel da história marcada pela divisão em blocos e pela Guerra Fria. O mundo (europeu) seria lindo, evoluído e todos se ajudariam em um sonho chamado União Europeia.

O Brasil até tentou copiar a iniciativa à moda caralha, houve Mercosul, nossa piada particular, mas enfim, na Europa as coisas pareciam funcionar de verdade. Eu acreditei muito na União Europeia, era o Small World da vida real. O sonho de um mundo sem fronteiras em que as diferenças são respeitadas. Na minha cabeça, aquilo deveria evoluir para uma escala verdadeiramente global.

Ah, esses jovens acreditam em tudo…

Mudamos de século, uma só moeda, melhora na economia como um todo e sucesso por um tempo até que deixou de ser. A impressão que tenho é que os governos, assim como as pessoas, são absolutamente egoístas. Querem festejar juntos, dividir lucros e até ajudar se isso não for sangrar a própria carne. Mas ninguém vai se sacrificar pelo outro, e no caso das nações, o outro é o país mais fraco, que não tem nada a oferecer.

Não tenho condições de dizer se os britânicos estão certos ou errados. Você tem a responsabilidade com seu próprio povo e no final, tem aquela história de garantir o seu oxigênio antes de por a máscara no coleguinha do lado. Mas a abordagem é muito egoísta pra mim, deve haver algum caminho equilibrado.

Este mundo

De qualquer forma, nós como brasileiros estamos fazendo um péssimo trabalho democrático, beirando um golpe. Os Estados Unidos têm a chance real de eleger racistas radicais nas próximas eleições. A União Europeia se enfraquece muito com a saída da Inglaterra. Grandes possibilidades de surtos de doenças altamente contagiosas.

Vamos ter que sonhar o futuro outra vez.

Quando eu crescer

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Colégio

Outro dia eu discutia política no colégio. Nosso grupo se autodenominava Jacobinos-Montanheses (era uma sala tipo stadium e a gente sentava no fundo, no alto) e fazia reivindicações como poder comprar o lanche na padaria (fora da escola!). Existia sim um problema, vou explicar. A cantina da escola era uma só e era insuficiente para a quantidade de alunos. Ela também ficava longe demais da área onde a gente estava. A turma do 2ºgrau, colegial, ou seja lá como vocês chamem isso hoje, ficava em uma expansão e essa expansão era longe da cantina. Já a padaria era ao lado.

A direção da escola estava claramente despreparada para lidar com a gente. Alunos com discurso político, fazendo arremedos de Revolução Francesa, usando táticas de guerrilha para expor fragilidades do sistema burocrático. Tudo pelo justo direito de não perder o intervalo todo numa caminhada e uma fila para comprar um salgado.

O pior foi que a turma conseguiu. A escola, a direção, preguiçosa ou despreparada, em vez de fazer uma filial de cantina na expansão, chamar os pais para uma conversa, dar explicações sobre a necessidade de tempo para se adequar a essa nova realidade, se acovardou e acatou as exigências dos alunos. E todos os dias, alunos menores de idades podiam sair nos intervalos, sem muito controle. Cadê responsabilidade?

Faculdade um

Outro dia estudava na faculdade de física. Ainda era criança, mas não sabia. Ou sabia? O movimento estudantil existia na faculdade, mas era meio absurdo. Porque ele não dizia respeito ao estudante e ao estudo, estava ligado ao movimento dos sem-terra. Eu mal dava conta das aulas de cálculo, não tentei entender. Chegando na Cidade Universitária, o pessoal estava fazendo protesto.

É greve dos professores, falaram. Ok, entendi. Vou embora, a prova seria cancelada. Aí explosão e carros pegando fogo. Aí bandeira do MST.  E eu com a dúvida: WTFH?

Faculdade dois

Outro dia eu já tinha mudado para a faculdade de comunicação e eu continuava sem entender muito bem a função real de um diretório acadêmico além de ter um cafofo para dormir quando você mata aula. As disputas de chapa eram uma coisa além da imaginação para mim. Eu não entendia porque uma, algumas ou talvez todas elas tinham propostas com coisas do tipo “FORA FMI!”. Really?!?!

Lutar por um ensino de qualidade? Por uma biblioteca decente? Por papel higiênico nos banheiros? Por professores que sigam a ementa da disciplina? Não, eles lutavam contra o FMI. E eu que era louca, alienada.

Adultos

A maioridade legal já havia chegado na primeira faculdade, é verdade, mas quem é que se sente adulto de verdade enquanto vive a vida dividido entre chopada, prova, estágio e matar aula para aprender alguma coisa. Agora, trabalhando para pagar as próprias contas, nessa vida de classe média falida, com diploma e sem dinheiro, vendo a maravilhosa vida de mentira pelas redes sociais. Procurando respostas e descobrindo que apesar de tanto tempo ter se passado as coisas mudaram quase nada mesmo, as pessoas ainda são bem ruinzinhas da cabeça mesmo. Querem ditadura mesmo, que a mulher seja submissa mesmo, jogar pedra na Geni e coisa e tal. E no final das contas, agora os adultos somos nós e o que é que nós vamos fazer?

Sei não.

Momentos

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Outro dia eu estava acho que na terceira série do primeiro grau, e eu sei que hoje a coisa nem é mais assim nas escolas, mas eu estava lá e o Collor tinha sido eleito. Minha professora de português estava comentando que era melhor assim, pois seria ruim para o país ter um presidente analfabeto.

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Na época achei o comentário estúpido, porque na minha cabeça infantil, ninguém se candidataria a presidente se não pudesse ser presidente. E também porque o nome Partido dos Trabalhadores dizia muito para mim, era o partido das pessoas que trabalham, fazia sentido. Também tinha a favor o fato deles terem elegido uma prefeita para São Paulo, a maior cidade do país. Eu tinha o quê, 8 anos?

Depois veio o governo, a política econômica, o sequestro da poupança e isso foi cruel, meus avós tinham vendido uma casa e o dinheiro foi todo perdido – eles foram roubados pelo Estado! Mas houve mais e então fomos apresentados ao Impeachment. Era a geração cara pintada. O triste é que alguns dos nomes que nasceram ali agora se destacam por estarem envolvidos em falcatruas, mas faz parte do processo.

Saiu o Collor e tivemos Itamar, topete, Fusca, plano Real e seu ministro FHC, que depois governou por 8 anos. A essa altura eu já havia me decepcionado com a política no geral. Antes achava que uma mulher governando faria a diferença, mas soube que a prefeita de São Paulo tinha feito um péssimo trabalho, comecei a perceber que apesar do que estava escrito no papel, os partidos não tinham tanta diferença ideológica, porque a ideologia mais verdadeira da maioria dos políticos brasileiros é a da vantagem, do benefício próprio. Reclamem da generalização.

Operação após operação, lavagem de dinheiro, escândalo, delação premiada, todo esse tipo de coisa e na primeira eleição que eu voto, começo a perceber que não tem muito pra onde correr, eu não consigo acreditar em nenhum candidato. Porque na hora do discurso isolado, ok até faz sentido. Mas aí você para e pensa, junta todo o histórico e não tem como. Não dá para simplesmente ignorar todo o resto. Era de prefeito.

Primeiro governo Lula, segundo governo Lula. O país não ruiu, até porque precisaria ter feito muito esforço pra isso, estávamos em um momento de ser destaque, mudar de patamar. E foram tantas decisões erradas, alianças, concessões. Tantas atitudes que eles mesmo tinham apontado no governo anterior e estavam replicando. O país só foi bem. Veio o governo Dilma, e ela superou minha expectativas no primeiro mandato. Mas as alianças colocaram tudo a perder…como estamos vendo.

Em momentos de mudança

Meu marido diz que o poder tem que trocar de lado de tempos em tempos, para manter o equilíbrio e favorecer todos os setores da economia. Porque se ficar o tempo todo focado em um só, a máquina quebra. Talvez ele esteja certo. O setor produtivo precisa de um imput, mas o setor produtivo mesmo, não quem já tá cheio de dinheiro e só quer ganhar uns milhões a mais e redistribuir propina.

Hoje o que eu vejo é muita gente discutindo política como se fosse futebol. Torcendo para uns e outros tomarem no rabo, para depois poderem comemorar com suas cervejas geladas. Também vejo o pior de suas visões preconceituosas sendo colocadas sobre a mesa.

Agressão por conta de cor de roupa. Ameaça de demissão por ter votado em tal partido. Até as crianças estão no clima. As palavras vão ficando mais pesadas, o tom de voz vai aumentando. A quem interessa isso?

Outro dia estava conversando com uns amigos, alguns falando em sair do país. Depois fiquei pensando que eu não posso sair do país por motivos de falta de dinheiro. Depois fiquei pensando se não seria covardia, na hora que a coisa fica mais difícil, em vez de realmente tentar pensar em uma solução, simplesmente virar as costas e tentar me refazer em outro lugar.

A verdade é que não sou política e não tenho habilidades para isso. Mas alguém que preste haverá de ter. E se a gente não apoiar alguém que faça a diferença, vai ter que reclamar para sempre do que se vê por aí.

 

Gripe

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Outro dia eu estava trabalhando em um freela, alocada na agência, e era o auge da crise do zika vírus. Lembro de uma colega de trabalho chegar dizendo que apesar da gravidade da situação, uns conhecidos dela na indústria farmacêutica apontavam que o grande problema na saúde pública este ano seria o retorno da gripe.

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Imagem: google.com

Confesso que não dei tanta atenção assim. Gripe. Pego muitas, mas para mim não é nada muito sério, só um bom transtorno que no máximo deixa as pessoas com febre de licença do trabalho por uns dias.

O freela acabou, o problema da zika piorou, depois sumiu da mídia, afinal a política nacional está imbatível. No entanto duvido que tenha se resolvido. Mas a gripe começou a aparecer devagar. Febre forte. Será que é dengue?

Na lentidão do nosso sistema de saúde, o H1N1 ou os novos que não lembro a sigla, se espalham sem precisar de mosquito vetor. Antes da campanha de vacinação começar, antes do frio chegar. As pessoas não sabem o que têm.

Ainda era apenas gripe, até ontem. As pessoas passavam mal, tinham febre alta, crianças precisavam de mais cuidado que adultos. Normal. Se alguém ficava pior era só imaginar que a pessoa já tinha algum problema anterior.

Até que um adulto razoavelmente saudável, completando 38 anos, começa a apresentar sintomas de gripe em um dia, é internado à noite e morre no dia seguinte. Rápido assim. Dessa gripe. E não é um nome desconhecido, é alguém que você conheceu, que a mãe é amiga da sua mãe. Não é uma hipótese no jornal, é a realidade batendo à porta.

Sei, ficou alarmista. Mas é que fiquei chocada, de verdade. Então é aquela coisa de se alimentar direito, beber bastante água, tentar evitar agomerações, lavar bem as mãos, essas coisas.

Tempos difíceis para os sonhadores

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Outro dia subi numa balança e um dos meus sonhos foi realizado: eu tinha engordado quase os 30 quilos de novo. Sim, porque pesadelo é um tipo de sonho.

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Quando você vive essa luta com a balança, e essa é parte fundamental da história da minha vida, eventualmente você ganha umas batalhas e acha que ao chegar a um número mágico a história terá um final feliz. Esse número mágico pode ser X quilos na balança, centímetros na cintura ou manequim do jeans. Cada pessoa escolhe o seu, cada época elege um como o mais saudável ou correto. Lembre-se que ele é mágico, não precisa fazer sentido.

Pois eu estava lá, flanando com minha conquista, lidando com os novos problemas por ter deixado um pré-adolescente de gordura ser metabolizado pelo meu organismo e uma coisa que você começa a ter medo é de que tudo volte.

A dinâmica é bem cruel.

  • 500 gramas e você não sabe se é paranoia ou o caminho de volta.
  • 2 quilos, mas deve ser porque estou menstruada.
  • 5, mas esse ano foi foda.
  • Outros 10, porque o desemprego tira qualquer um do eixo.

Por aí vai. Nesse meio tempo fiz academia, caminhada, yoga, academia de novo… mais foco no aeróbico, mais na musculação. Mas a cabeça, a cabeça ficou na contagem regressiva: será que vai voltar tudo? Ou ainda, quando será?

Cinco anos depois, sonho ruim realizado. Ponteiro da balança…ponteiro nada, a balança hoje é digital. Quase de volta aos números iniciais, tentando achar outro caminho pra acordar disso aqui.