Quando eu crescer

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Colégio

Outro dia eu discutia política no colégio. Nosso grupo se autodenominava Jacobinos-Montanheses (era uma sala tipo stadium e a gente sentava no fundo, no alto) e fazia reivindicações como poder comprar o lanche na padaria (fora da escola!). Existia sim um problema, vou explicar. A cantina da escola era uma só e era insuficiente para a quantidade de alunos. Ela também ficava longe demais da área onde a gente estava. A turma do 2ºgrau, colegial, ou seja lá como vocês chamem isso hoje, ficava em uma expansão e essa expansão era longe da cantina. Já a padaria era ao lado.

A direção da escola estava claramente despreparada para lidar com a gente. Alunos com discurso político, fazendo arremedos de Revolução Francesa, usando táticas de guerrilha para expor fragilidades do sistema burocrático. Tudo pelo justo direito de não perder o intervalo todo numa caminhada e uma fila para comprar um salgado.

O pior foi que a turma conseguiu. A escola, a direção, preguiçosa ou despreparada, em vez de fazer uma filial de cantina na expansão, chamar os pais para uma conversa, dar explicações sobre a necessidade de tempo para se adequar a essa nova realidade, se acovardou e acatou as exigências dos alunos. E todos os dias, alunos menores de idades podiam sair nos intervalos, sem muito controle. Cadê responsabilidade?

Faculdade um

Outro dia estudava na faculdade de física. Ainda era criança, mas não sabia. Ou sabia? O movimento estudantil existia na faculdade, mas era meio absurdo. Porque ele não dizia respeito ao estudante e ao estudo, estava ligado ao movimento dos sem-terra. Eu mal dava conta das aulas de cálculo, não tentei entender. Chegando na Cidade Universitária, o pessoal estava fazendo protesto.

É greve dos professores, falaram. Ok, entendi. Vou embora, a prova seria cancelada. Aí explosão e carros pegando fogo. Aí bandeira do MST.  E eu com a dúvida: WTFH?

Faculdade dois

Outro dia eu já tinha mudado para a faculdade de comunicação e eu continuava sem entender muito bem a função real de um diretório acadêmico além de ter um cafofo para dormir quando você mata aula. As disputas de chapa eram uma coisa além da imaginação para mim. Eu não entendia porque uma, algumas ou talvez todas elas tinham propostas com coisas do tipo “FORA FMI!”. Really?!?!

Lutar por um ensino de qualidade? Por uma biblioteca decente? Por papel higiênico nos banheiros? Por professores que sigam a ementa da disciplina? Não, eles lutavam contra o FMI. E eu que era louca, alienada.

Adultos

A maioridade legal já havia chegado na primeira faculdade, é verdade, mas quem é que se sente adulto de verdade enquanto vive a vida dividido entre chopada, prova, estágio e matar aula para aprender alguma coisa. Agora, trabalhando para pagar as próprias contas, nessa vida de classe média falida, com diploma e sem dinheiro, vendo a maravilhosa vida de mentira pelas redes sociais. Procurando respostas e descobrindo que apesar de tanto tempo ter se passado as coisas mudaram quase nada mesmo, as pessoas ainda são bem ruinzinhas da cabeça mesmo. Querem ditadura mesmo, que a mulher seja submissa mesmo, jogar pedra na Geni e coisa e tal. E no final das contas, agora os adultos somos nós e o que é que nós vamos fazer?

Sei não.

Dia 85 – Veneno

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Cada um dos sentidos tem sua função na evolução humana e o olfato deve ter ajudado bastante nessa história de ajudar a descobrir se um alimento é próprio para comer, se um lugar está infectado de gases tóxicos e para encontrar o pai ou a mãe dos seus filhotes e dar continuidade à espécie.

A coisa foi evoluindo, as civilizações foram aprendendo a tomar banho, apesar de algumas pessoas esquecerem disso, mas no geral as pessoas vão se limpando e deixando de feder. Que ótimo. Algumas culturas têm medo de água, como a francesa que historicamente associa imersão na água à doenças. É meio contrário a nossas crenças de raízes indígenas e mergulhadas na  água, mas vamos seguir. Eles aperfeiçoaram a coisa toda da perfumaria e é aqui que eu queria chegar.

Você, brasileira querida, que pega trem, ônibus e metrô; num calor de 30 graus centígrados, faça-me o favor de economizar o perfume enjoativo pensado para uma temperatua abaixo de zero e para ser usado duas gotas atrás da orelha. Eu não quero dividir esssaa experiência com você.

Uma vez me falaram que a decisão por usar o perfume forte assim era porque gostava de deixar um rastro por onde passava. Really?

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Isso é argumento de desodorante pobre dos anos 80. É isso mesmo que você quer ser?

Perfume é uma coisa extremamente pessoal, tanto que mesmo os que eu acho péssimos eu me atenho a falar que não são pra mim. Afinal não sou especialista. Mas também não acho que sou obrigada a me intoxicar com o cheiro dos outros. Homens e mulheres que acham que estão arrasando com tanto cheiro. Acho invasivo.

Eu, dentro do transporte público, fico enjoada, dentro do restaurante acho que atrapalha tanto quanto o cheiro do cigarro, dentro do escritório vai dando dor de cabeça se for muito forte…

E cá pra nós, tem perfume que é caríssimo, tá na moda e tem cheiro de desinfetante.

Dia 30 – Custo

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Ser mulher foi uma pauta e tanto em 2015. E tem gente que acha que é exagero, político que acha que mulher tem que ganhar menos mesmo, afinal vai ter filho, vai dar prejuízo. Tem homens e mulheres que ainda acham que em caso de violência sexual a mulher tava pedindo, afinal tava usando uma roupa assim, ou deu a entender alguma coisa. Todo tipo de coisa.

Mas ser mulher tem implicações mais profundas do que a gente imagina. Além da disparidade salarial, dado um mesmo cargo e resultados, tem a questão do valor dos produtos femininos.

No Instagram da revista Dazed (@dazed) eles divulgaram uma pesquisa feita nos Estados Unidos que mostra que se tiverem dois produtos similares, um para homens e outro para mulheres, os femininos serão sete por cento mais caros, em média. Parece pouco, mas pense em uma vida toda. Alguns setores têm uma porcentagem maior, como os produtos de cuidados pessoais. Acredito que no Brasil a coisa deva ser parecida.

Leis de mercado

Aí você, amigo ou amiga machista, pode alegar que as mulheres pagam mais porque compram mais, oferta e procura. Sério que vamos precisar entrar nessa história? E vamos precisar lembrar de todos os papéis que nós mulheres precisamos decidir assumir, decidir entre se arrumar e talvez ser chamada de fútil ou ficar de boa e talvez ser chamada de relaxada? E não ser bem vista no trabalho? Ou ser considerada menos competente por conta da aparência? Bom dia Bela Adormecida, o mundo real é bem por aí.

Porque os discursos de ser você mesma são lindos, mas não é sempre que coincidem com o dress code que a gente tem que seguir e no nosso caso são muitos detalhes para cuidar não virar motivo de repreensão.

 

Dia 12 – Prova

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Sabe quando existe uma coisa muito séria na vida que tá ali te impedindo de fazer outras coisas muito sérias na vida? Então, a prova final da pós era essa coisa. Mas a prova foi hoje. E a partir de segunda as outras coisas precisarão andar porque eu não terei mais que estudar pra prova da pós.

Foi difícil, não porque a matéria seja difícil, mas porque foi uma prova muito mal escrita. Você faz uma pós-graduação para aprender a pensar e eles te jogam uma prova de decoreba. Gente. Perguntar qual dos seguintes autores não criou um modelo de SIM mede minha capacidade analítica? Mostra que eu sei alguma coisa de Sistema de Informação de Marketing? Não né? Mostra apenas que o professor do curso estava com preguiça de pensar em questões decentes.

Eu não deveria reclamar da minha pós, afinal quero que ela some pontos no meu currículo. Mas no geral, a cultura de provas e avaliações no Brasil é absurda. É uma guerrinha entre alunos e professores, em que conhecimento é o que menos importa. Mostre que você entende de pegadinha, malandro.

Tudo bem, isso vale para provas, processos seletivos, eleições, dietas, conversas com o telemarketing, confessionários na igreja…